Urbanismo em Will Eisner: como a Avenida Dropsie pode ser uma aula sobre nossas cidades?

As mudanças dos aspectos rurais de um local passando para características urbanas, atrelados a um crescimento populacional e territorial: isto é urbanização. E o cartunista norte americano Will Eisner em sua graphic novel Avenida Dropsie: A vizinhança exemplifica bem como se dá este processo.

Reunindo várias histórias e memórias próprias (a HQ é "semi-autobiográfica"), Eisner demonstra o ciclo de vida de uma vizinhança fictícia - mas que demonstra muito bem a realidade – do sul do Bronx em Nova Iorque, ao longo de um século: nascimento, desenvolvimento, declínio e ressurgimento. Mas o que todas as histórias que se passam desde o século XIX até os anos atuais têm em comum? Simples, o palco de apresentação é a Avenida Dropsie.

Através de recortes do dia-a-dia dos seus moradores que se entrelaçam e sobrepõem, a trama é retratada de maneira a termos experiências sensíveis da cidade e do cotidiano urbano, e muito bem levantada seriam as questões de vizinhança como lugar de pertencimento de determinada área para o morador. As relações que combinamos com o espaço urbano se modificaram desde o pe­ríodo industrial e até hoje, não obser­vamos o meio urbano com os mesmos olhos, e nem neste meio concretizamos percur­sos com os mesmos fins.

Outro ponto muito bem explorado por Eisner que se passa na narrativa, é a intolerância e conflitos dada à ocupação de diferentes grupos étnicos, sociais, religiosos e econômicos no bairro do Bronx; evidenciando a mescla de povos que compõem os bairros de NY. Com o passar dos anos, a identidade da vizinhança de cada "grupo" que fica e se estabelece, cria receios e preconceitos dos próximos imigrantes que podem vir chegar e abalar a comunidade que estes primeiros criaram. Na HQ podemos verificar isto quando os residentes ingleses discriminam e "fofocam" sobre os recém-chegados imigrantes italianos, que ali se estabelecem na Avenida Dropsie.

Apresenta ainda, a questão do urbanismo de quem a "construiu" e realizou a política de planejamento urbano em meio à corrupção, máfias e diversos interesses de "poderosos" influenciadores, caracterizando a ausência de um planejamento centralizado pois há apenas interesses de "outros" que são levados em conta. O personagem do "herói de guerra" Danny Smith, é nomeado como diretor de planejamento da cidade apenas por ser um "neutro", para absorver as vontades do Big Ed Casey, um dono de construtora que deseja que o transporte público chegue próximo a terrenos onde construirá cortiços, e assim, para lucrar com os aluguéis dos novos imigrantes.



O fascínio de Eisner pelo meio urbano e a vida pelos grandes centos urbanos através do pano de fundo da avenida; exemplifica as imagens que a paisagem pode sofrer: a chegada e fim das primeiras plantações, as construções de casas e a demolição das mesmas, a construção e fim de novas edificações e comércios, culminando no reaparecimento dos conjuntos habitacionais. Ressalta o poder do espaço construído na virtude de criar in­terações sociais, na capacidade das configurações urbanas em gerar e possibilitar formas de convívio social, como por exemplo o casamento de uma italiana e um judeu. Nada mais do que a realidade de que todas as cidades reais são suscetíveis a passar.


Vivenciamos a era das trans­formações exacerbadas, onde as dinâmicas existentes nos territórios mostram-se, como nunca, tão drasticamente constata­das no histórico das cidades. A arquitetura e urbanismo adentra neste con­texto, passando por mutações e adaptações em todas as escalas. Os efeitos das rápi­das mudanças da metrópole pós-industrial são diversas, heterogêneas e complexas. Segundo o arquiteto e professor Mario Lungo, a noção de projeto urbano surge na Europa nos anos 70, associada a contradições existentes entre os projetos arquitetônicos de grande dimensão e os planos urbanos. Posteriormente, o projeto urbano passa a ser entendido como uma atuação pública sobre um segmento da cidade, mas articulada a uma visão global da mesma e aos problemas econômicos e sociais. Com essa mudança, a idéia de projeto urbano compete com a de plano urbano ao ser mais atrativa para os investidores privados, pois além de possuir objetivos econômicos, sociais, culturais e ambientais, que estão de acordo com interesse privado. Na trama da Avenida Dropsie, o recorte sobre a compra de toda região da avenida – já totalmente destruída pelos incêndios –  por uma antiga moradora, levanta esta questão do investimento privado e renascimento de uma área degradada da cidade. 

Como um todo, a cidade sempre se apresen­tou mais conecta ao desenvolvimento do homem do que o mesmo tem a capacidade de imaginar. Em determinados momentos, o ser humano se desloca pela cidade desperce­bido, sem descobrir sua certa relevância no cotidiano. E é desta forma que Eisner constrói a vida de urbana através dos desenhos tão bem, que poderia facilmente substituir uma aula de história e urbanismo.  

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